Sentido, dignidade e família no fim de vida: o que aprendemos com a Terapia do Sentido da Vida
Em 2023, publicámos na revista OMEGA – Journal of Death and Dying um estudo-piloto sobre uma intervenção psicológica que desenvolvemos para pessoas em cuidados paliativos: a Terapia do Sentido da Vida. O artigo saiu na edição impressa em 2026. Partilho aqui, de forma simples, o que fizemos e um aspeto que me parece especialmente importante para as famílias que acompanho hoje: o lugar da família na forma como cada pessoa dá sentido à sua vida.
O que é a Terapia do Sentido da Vida
É uma intervenção breve, em quatro sessões, construída a partir de três abordagens com evidência científica em cuidados paliativos: a Terapia da Dignidade, a Revisão de Vida e a Psicoterapia Centrada no Sentido. Adaptámo-la à realidade portuguesa e acrescentámos temas que muitas pessoas querem abordar nesta fase da vida: o perdão, o pedido de desculpa, a reconciliação e a despedida.
Ao longo das sessões, a pessoa responde, ao seu ritmo, a 14 perguntas. Por exemplo: que momentos felizes gostaria de recordar, do que mais se orgulha, como gostaria de ser lembrada, que conselhos quer deixar, se há alguém a quem queira dar um abraço ou de quem se queira despedir. A partir dessas respostas, a psicóloga escreve uma Carta de Vida, que a própria pessoa lê, corrige e aprova, e que pode depois entregar a quem quiser.
Como foi o estudo
Participaram nove pessoas com doença oncológica avançada, acompanhadas pelo serviço de cuidados paliativos (em consulta ou em internamento) de um hospital do norte do país. Trata-se de um estudo-piloto qualitativo: não permite tirar conclusões sobre a eficácia da intervenção, mas ajuda a perceber se as perguntas fazem sentido para as pessoas e que temas surgem quando se dá espaço a estas conversas.
O que as pessoas quiseram dizer
Das Cartas de Vida surgiram oito temas: a família, a preservação da identidade, o olhar sobre a vida vivida, a situação clínica, as conquistas, o valor social e profissional, o perdão e a reconciliação, e a despedida.
- A família foi o tema mais presente. As pessoas falaram dos filhos, do marido ou da mulher, da casa construída em conjunto, do desejo de dizer mais uma vez a quem fica que o amam. A família surgiu como a principal fonte de apoio emocional: no passado, pela vida partilhada; no presente, pelo cuidado de todos os dias.
- A identidade veio logo a seguir: ser lembrado como alguém lutador e honrado, manter rotinas e rituais, encontrar sentido na fé, nos laços familiares ou no que se aprendeu com a doença.
- O perdão e a reconciliação foram vividos de formas diferentes. Muitas pessoas disseram não sentir essa necessidade. Para outras, surgiu o desejo de se reconciliar com alguém próximo, ou a alegria por uma reconciliação que já tinha acontecido. Quando estes temas apareceram, estavam muitas vezes ligados à família e, em alguns casos, à fé.
Porque é que isto importa para quem cuida
O ponto que mais gostaria de partilhar é este: as perguntas sobre a despedida abriram conversas que muitas vezes não acontecem entre a pessoa doente e a família. O artigo fala da chamada conspiração do silêncio, quando todos sentem que o tempo é curto mas ninguém consegue falar disso. Criar um espaço seguro para estas conversas pode ajudar a pessoa a sentir-se ouvida e, mais tarde, apoiar a família no luto: a carta fica como uma forma de continuar a ouvir a voz de quem partiu.
Na minha prática atual, com pessoas com demência e com as suas famílias, penso muitas vezes nisto. A doença pode ir levando palavras e memórias, mas não apaga a história nem o valor de cada pessoa. No estudo participaram apenas pessoas com as capacidades cognitivas preservadas, e o próprio artigo sugere que esta abordagem venha a ser estudada noutros contextos, incluindo as doenças neurodegenerativas. Por isso, quando há um diagnóstico de demência, parece-me valioso dar espaço a estas conversas com tempo, enquanto a pessoa ainda pode dizer, por palavras suas, o que é importante para ela.
Os limites do estudo
É um estudo pequeno, com nove pessoas e sem grupo de comparação. Os próprios autores apontam outras limitações: o intervalo longo entre sessões, o encaminhamento muitas vezes tardio para os cuidados paliativos e o agravamento rápido do estado de saúde de alguns participantes, que não puderam terminar a intervenção. São necessários mais estudos, incluindo com os familiares, para compreender os efeitos ao longo do tempo.
Uma nota final
Estas conversas não são fáceis e não têm de acontecer de uma só vez. Cada pessoa e cada família tem o seu ritmo, as suas crenças e a sua história, e tudo isso merece respeito. Se sente que há coisas por dizer na sua família, ou não sabe bem como começar, posso ajudar. Veja também o apoio a cuidadores e famílias.
Perguntas frequentes
A Terapia do Sentido da Vida pode ser feita com pessoas com demência?
No estudo participaram apenas pessoas com as capacidades cognitivas preservadas. O artigo sugere que esta abordagem venha a ser estudada noutras situações, incluindo as doenças neurodegenerativas.
Quem fica com a Carta de Vida?
A carta pertence à pessoa. É ela que a lê, corrige e aprova, e que decide a quem a quer entregar.
Precisa de ajuda?
Não tem de fazer este caminho sem apoio. Há muito que se pode fazer para que a pessoa viva com mais tranquilidade e para que a família se sinta mais preparada. Se quiser conversar sobre a sua situação, posso ajudar: em Paredes, ao domicílio no Tâmega e Vale do Sousa, ou online.
Referência
Cardoso, A. R., Remondes-Costa, S., Veiga, E., Almeida, V., Rocha, J., Teixeira, R. J., Macedo, G., & Leite, M. (2026). Meaning of Life Therapy: A pilot study of a novel psycho-existential intervention for palliative care in cancer. OMEGA – Journal of Death and Dying, 92(3), 1529–1558. https://doi.org/10.1177/00302228231209654
Texto integral em acesso aberto: Europe PMC · PubMed
