O meu pai (ou a minha mãe) teve um AVC e vem para casa: o que preparar
O dia da alta é, muitas vezes, um misto de alívio e de medo. A pessoa vai finalmente para casa, mas a família pergunta-se: e agora? Vamos conseguir? O regresso a casa depois de um AVC pede alguma preparação, e é normal não saber tudo à partida. Reuni aqui os passos mais importantes para as primeiras semanas.
A recuperação depois de um AVC pode continuar durante meses e, em muitos casos, durante anos. Cada pequeno progresso conta.
1. Antes da alta: falar com a equipa do hospital
Os hospitais do SNS têm uma Equipa de Gestão de Altas, que ajuda a planear a saída das pessoas que vão precisar de cuidados continuados ou de apoio em casa. O serviço social do hospital também pode ajudar a organizar apoios. Antes da alta, pode ser útil perguntar:
- Que medicação vai tomar, em que horários e durante quanto tempo?
- Que consultas ficam marcadas (neurologia, medicina física e de reabilitação, médico de família)?
- Como vai continuar a reabilitação, e onde?
- Faz sentido pedir cuidados continuados?
- Vai precisar de produtos de apoio, como cadeira de rodas, andarilho ou cama articulada?
- Como ajudar nas transferências, na higiene e na alimentação, sobretudo se houver dificuldade em engolir?
- Pode levar um relatório clínico atualizado? Vai ser útil para pedir apoios.
2. Continuar a reabilitação
Segundo a Portugal AVC, a recuperação pode continuar durante muito tempo, por vezes anos, e o médico de família pode e deve avaliar se os tratamentos devem continuar. Depois da alta, há vários caminhos possíveis:
- Consulta de Medicina Física e de Reabilitação, no hospital ou através do médico de família, que pode e deve avaliar se os tratamentos devem continuar.
- Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI): unidades de convalescença (até 30 dias), de média duração e reabilitação (30 a 90 dias) ou de longa duração, e equipas que vão a casa. O pedido é feito pela Equipa de Gestão de Altas, durante o internamento, ou pelo centro de saúde, se a pessoa já estiver em casa.
- Centro de Reabilitação do Norte (220 901 200), que exige uma consulta de avaliação prévia.
3. Produtos de apoio
Cadeiras de rodas, andarilhos, camas articuladas, barras de apoio e outros equipamentos podem ser financiados pelo Estado, através do Sistema de Atribuição de Produtos de Apoio. A prescrição pode ser feita por médicos dos hospitais e dos centros de saúde, entre outras entidades. Um conselho importante: não compre antes de haver decisão, porque as compras feitas antes não são reembolsadas. Pergunte ainda no hospital se pode sair já com a prescrição.
4. Preparar a casa
- Libertar os caminhos: retirar tapetes soltos, fios e móveis que atrapalhem.
- Colocar barras de apoio na casa de banho e, se for preciso, uma cadeira de duche.
- Se as escadas forem difíceis, pensar em organizar a vida no piso de baixo, pelo menos numa primeira fase.
- Garantir boa luz, sobretudo à noite, no caminho para a casa de banho.
- Deixar ao alcance da mão o que a pessoa usa mais.
Os terapeutas que acompanham a reabilitação podem ajudar a perceber que adaptações fazem sentido em cada casa.
5. Prevenir um novo AVC
O risco de um novo AVC é maior nos primeiros tempos: estima-se que cerca de 1 em cada 10 pessoas tenha um novo AVC no primeiro ano. Muito deste risco pode ser reduzido:
- Tomar a medicação todos os dias, como foi indicado, e não a suspender sem falar com o médico.
- Controlar a tensão arterial, a diabetes, o colesterol e outras doenças que já existiam.
- Deixar de fumar, moderar o álcool, mexer-se todos os dias e comer de forma equilibrada.
6. Saber reconhecer os sinais de um AVC
Toda a família deve conhecer os 3 F da Portugal AVC:
- Fala: peça à pessoa que diga uma frase. A fala está arrastada ou estranha?
- Face: peça que sorria. A boca fica desviada para um dos lados?
- Força: peça que levante os dois braços. Um deles cai?
Se notar pelo menos um destes sinais, ligue de imediato para o 112. Perda súbita de equilíbrio, de visão ou uma dor de cabeça muito forte e repentina também são sinais de alerta.
7. Apoios a que pode ter direito
- Complemento por dependência: para pensionistas (e, em certos casos, não pensionistas) que precisam da ajuda de outra pessoa no dia a dia, com a dependência confirmada pela Segurança Social. Segundo o guia da Segurança Social, o primeiro pagamento chega, em média, cerca de 150 dias depois do pedido, por isso convém pedir cedo.
- Estatuto do Cuidador Informal: reconhece quem cuida e dá acesso a formação, apoio psicológico e descanso.
- Atestado multiuso: certifica o grau de incapacidade; a partir de 60%, pode dar acesso a benefícios fiscais e outros apoios.
- Portugal AVC: tem aconselhamento psicológico gratuito à distância e grupos de ajuda mútua para sobreviventes e famílias.
Veja também os apoios e contactos na região.
8. Conduzir e voltar ao trabalho
Não há um prazo fixo igual para todos. A decisão sobre voltar a conduzir depende da avaliação médica e da forma como a pessoa recupera. O regresso ao trabalho pode ser preparado com o médico do trabalho e, se for preciso, com apoio dos centros de reabilitação profissional e do IEFP.
9. E quem cuida?
As primeiras semanas em casa são exigentes, sobretudo para quem fica com a maior parte dos cuidados. Aceite ajuda, divida tarefas e guarde algum tempo para si. Leia também Cansaço de cuidador: como reconhecer antes de chegar ao limite.
Quando pedir ajuda
Depois de um AVC, há mudanças que não se veem à primeira vista: na memória, na atenção, no humor ou na forma de reagir. Uma avaliação neuropsicológica ajuda a perceber o que mudou, e a reabilitação neuropsicológica trabalha essas dificuldades no dia a dia, em casa ou no consultório. Leia também Ele já não é o mesmo depois do AVC.
Perguntas frequentes
Quanto tempo demora a recuperação depois de um AVC?
Varia muito de pessoa para pessoa. Em geral, os progressos mais rápidos acontecem nos primeiros meses, mas a recuperação pode continuar durante muito mais tempo. Por isso, vale a pena manter a reabilitação e não desanimar se os progressos forem lentos.
A reabilitação acaba quando a pessoa sai do hospital?
Não tem de acabar. A Portugal AVC lembra que a recuperação pode continuar durante muito tempo e que o médico de família deve avaliar se faz sentido continuar os tratamentos.
Posso deixar a pessoa sozinha em casa?
Depende das dificuldades que ficaram e da segurança da casa. Converse com a equipa de reabilitação sobre o que a pessoa já consegue fazer em segurança. Muitas famílias começam por períodos curtos, com o telemóvel à mão e os números de emergência visíveis.
Precisa de ajuda?
Não tem de fazer este caminho sem apoio. Há muito que se pode fazer para que a pessoa viva com mais tranquilidade e para que a família se sinta mais preparada. Se quiser conversar sobre a sua situação, posso ajudar: em Paredes, ao domicílio no Tâmega e Vale do Sousa, ou online.
Fontes
- Portugal AVC: Guia do Sobrevivente e do Cuidador (PDF)
- Portugal AVC: tratamento continuado do sobrevivente
- Portugal AVC: sinais de AVC
- Portugal AVC: produtos de apoio
- Segurança Social: Guia Prático do Complemento por Dependência
- Segurança Social: Guia Prático da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados
- NHS: Stroke recovery
- Mohan et al. (2011): risco de novo AVC, revisão sistemática, revista Stroke
- Portugal AVC: apoio a sobreviventes e cuidadores
Revisto em outubro de 2026. As regras e os apoios podem mudar; confirme sempre junto da entidade responsável.
