Casal de idosos abraçado, de costas, a caminhar numa estrada

Ele já não é o mesmo depois do AVC: alterações cognitivas e emocionais

“Ele já não é o mesmo.” É uma frase que muitas famílias dizem depois de um AVC. A pessoa pode ter recuperado bem a força ou a marcha e, ainda assim, estar diferente: mais esquecida, mais lenta, mais irritável, mais triste ou sem vontade de fazer nada. Estas mudanças não são falta de esforço nem uma mudança de feitio. São, muitas vezes, consequências do AVC no cérebro, e muitas delas podem melhorar com o tempo e com o apoio certo.

Mudanças que são mais comuns do que se pensa

A investigação mostra que estas alterações são frequentes:

  • Dificuldades de memória, atenção ou planeamento: cerca de 4 em cada 10 pessoas, no primeiro ano após o AVC, têm dificuldades que não chegam a ser demência.
  • Fadiga: cerca de metade das pessoas sente um cansaço que não passa com o descanso.
  • Depressão: cerca de 1 em cada 3 pessoas.
  • Apatia (falta de iniciativa e de interesse): também cerca de 1 em cada 3, segundo uma revisão de investigadores portugueses.
  • Ansiedade: cerca de 1 em cada 4 pessoas no primeiro ano.
  • Choro ou riso que a pessoa não consegue controlar: cerca de 1 em cada 5, nos primeiros meses.

Como se nota no dia a dia

  • Esquecer conversas recentes, recados ou onde deixou as coisas.
  • Perder o fio à meada, cansar-se depressa numa conversa com várias pessoas.
  • Demorar mais a pensar e a responder.
  • Ter dificuldade em organizar tarefas que antes eram simples, como fazer uma refeição ou tratar de contas.
  • Ficar mais impaciente, irritável ou impulsivo.
  • Passar muito tempo parado, sem iniciativa, mesmo para coisas de que gostava.
  • Ignorar o que está de um dos lados, por exemplo deixar comida de um lado do prato ou embater em portas. Chama-se negligência e acontece sobretudo quando o AVC atinge o lado direito do cérebro.
  • Ter dificuldade em encontrar as palavras ou em compreender o que se diz (afasia).

Vai melhorar?

Cada pessoa tem o seu ritmo. Para algumas, a recuperação demora semanas; para outras, meses ou anos. Muitas destas alterações melhoram com o tempo, e a reabilitação pode continuar muito para lá da alta. Perceber o que mudou ajuda a família a ajustar as expectativas e a apoiar a pessoa da forma certa.

O que pode ajudar

Perceber o que mudou

Uma avaliação neuropsicológica mostra que capacidades estão preservadas e quais estão afetadas. Ajuda a definir objetivos realistas, a escolher estratégias e a explicar à família o que se está a passar.

Reabilitação e estratégias para o dia a dia

A reabilitação neuropsicológica trabalha as dificuldades e, sobretudo, ensina estratégias para as compensar: agendas, alarmes, rotinas, listas, fazer uma coisa de cada vez. Sendo honesta, a investigação mostra benefícios modestos, sobretudo na forma como a própria pessoa sente a memória e a curto prazo, e há ainda muito por estudar. Por isso, é importante que a intervenção seja pensada para os objetivos reais de cada pessoa e da sua família. Na afasia, a terapia da fala pode melhorar a comunicação no dia a dia.

Respeitar a fadiga

  • Planear o dia com pausas e deixar para as melhores horas o que exige mais esforço.
  • Não encher a agenda nem pedir tudo ao mesmo tempo.
  • Falar com o médico: a fadiga pode ser agravada por problemas de sono, pela medicação ou por outras doenças. Não suspenda medicação sem orientação médica.

Comunicar quando há afasia

  • Dizer primeiro qual é o tema da conversa.
  • Usar frases curtas e simples e perguntas de resposta sim ou não.
  • Usar gestos, imagens ou escrita, se ajudar.
  • Conversar num sítio calmo, sem televisão nem música.
  • Dar tempo e resistir à tentação de terminar as frases pela pessoa.

Quando o choro ou o riso surgem sem razão

Explicar aos outros o que se passa evita mal-entendidos. Mudar de assunto, respirar devagar ou mudar de posição pode ajudar a pessoa a recuperar o controlo.

Quando procurar ajuda

Esteja atento a sinais de depressão: tristeza ou vazio que não passam, perda de interesse por tudo, alterações do sono e do apetite, sentimento de culpa ou de ser um peso. Se estes sinais durarem mais de duas semanas, fale com o médico de família ou com um psicólogo. Se a pessoa falar em morrer ou em fazer mal a si própria, procure ajuda de imediato.

A linha SNS 24 (808 24 24 24) tem aconselhamento psicológico disponível 24 horas por dia. Numa situação de perigo, ligue 112.

E a família?

Viver com estas mudanças pode ser doloroso. É natural sentir saudade de quem a pessoa era, ou frustração quando as coisas não correm como esperado. A Portugal AVC tem aconselhamento psicológico gratuito e grupos de ajuda mútua, e o apoio a cuidadores pode ajudar a família a encontrar o seu lugar nesta nova fase. Leia também O meu pai teve um AVC e vem para casa: o que preparar.

Perguntas frequentes

Estas mudanças querem dizer que é demência?

Não necessariamente. Muitas alterações depois de um AVC melhoram com o tempo e com reabilitação. Uma avaliação neuropsicológica ajuda a perceber o que mudou e a acompanhar a evolução, para que se possa agir cedo se alguma coisa piorar.

Porque está sempre tão cansado, se passa o dia a descansar?

A fadiga depois de um AVC é diferente do cansaço habitual: pode não passar com o descanso. É comum e não é preguiça. Planear o dia com pausas e falar com o médico sobre o sono e a medicação pode ajudar.

Como é que a família pode ajudar na reabilitação?

Mantendo rotinas, ajudando a usar as estratégias combinadas com a equipa (agenda, alarmes, listas) e dando tempo para a pessoa fazer as coisas por si. A família tem um papel importante, mas também precisa de apoio.

Precisa de ajuda?

Não tem de fazer este caminho sem apoio. Há muito que se pode fazer para que a pessoa viva com mais tranquilidade e para que a família se sinta mais preparada. Se quiser conversar sobre a sua situação, posso ajudar: em Paredes, ao domicílio no Tâmega e Vale do Sousa, ou online.

Fontes

Revisto em outubro de 2026. As regras e os apoios podem mudar; confirme sempre junto da entidade responsável.

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