Exercícios para a memória: o que funciona mesmo?
“Que exercícios posso fazer para a memória?” É uma das perguntas que mais ouço. A boa notícia é que manter a mente ativa faz bem, em qualquer idade. Mas nem tudo o que se promete tem base científica, e vale a pena saber o que a investigação diz, para investir o tempo naquilo que mais ajuda.
O que diz a investigação
- Melhoramos sobretudo naquilo que treinamos. Quem treina a atenção tende a melhorar na atenção; quem faz palavras cruzadas tende a ficar melhor em palavras cruzadas. Há pouca evidência de que esses ganhos passem para o dia a dia.
- Os efeitos, quando aparecem, são pequenos. As revisões de estudos encontram benefícios modestos em algumas formas de memória e na velocidade de pensamento, muitas vezes de curta duração e de importância incerta no dia a dia.
- Acompanhado funciona melhor do que sozinho. Uma revisão de 2014 sobre treino em computador sugere que o treino orientado, em grupo, dá melhores resultados do que o treino feito sozinho em casa, e que até três sessões por semana funcionam melhor do que mais.
- Alguns ganhos podem durar. Num grande estudo norte-americano, o estudo ACTIVE, os efeitos do treino de raciocínio e de velocidade nas capacidades treinadas ainda se notavam dez anos depois. Os do treino de memória, não. Os participantes treinados referiam também, em média, menos dificuldades no dia a dia do que os do grupo de comparação.
O que também conta, e muito
A memória não depende só de exercícios mentais. A Comissão Lancet (2024) identificou vários fatores sobre os quais é possível agir e que estão ligados à saúde do cérebro ao longo da vida, como:
- manter-se fisicamente ativo;
- conviver e evitar o isolamento;
- tratar a perda de audição e cuidar da visão;
- controlar a tensão arterial, a diabetes e o colesterol;
- não fumar e moderar o álcool;
- cuidar do humor e procurar ajuda se houver depressão.
Ideias simples para o dia a dia
- Aprender algo novo: uma língua, um instrumento, uma receita, uma tecnologia.
- Ler e conversar com alguém sobre o que leu.
- Jogar com outras pessoas: cartas, dominó, jogos de tabuleiro.
- Caminhar com amigos: junta movimento e convívio.
- Cantar, dançar, ouvir música e falar sobre as memórias que ela traz.
- Usar a agenda, listas e rotinas sem culpa: são ferramentas, não sinal de fraqueza.
O mais importante é escolher atividades de que goste, que tenham algum desafio e que, se possível, se façam com outras pessoas.
Desconfie de promessas milagrosas
Frases como “rejuvenesça o cérebro” ou “previna o Alzheimer em poucos minutos por dia” não têm suporte científico. Não existe nenhum jogo ou aplicação que garanta proteção contra a demência.
Quando procurar ajuda
Se os esquecimentos se repetem, pioram ou começam a atrapalhar o dia a dia, vale a pena fazer uma avaliação. Leia Esquecimentos normais da idade ou sinal de alerta?. Se quer cuidar da sua memória com acompanhamento, conheça a intervenção cognitiva no envelhecimento.
Perguntas frequentes
As aplicações de treino cerebral valem a pena?
Podem ser uma opção se gostar delas. Os estudos mostram que melhoramos sobretudo nos exercícios que praticamos, e há pouca evidência de benefícios no dia a dia. Não substituem o exercício físico, o convívio nem a avaliação, se a memória o preocupa.
Com que idade devo começar a cuidar da memória?
Nunca é cedo demais nem tarde demais. A Comissão Lancet lembra que os fatores de risco da demência se acumulam ao longo da vida, e que é possível agir sobre muitos deles em qualquer idade.
Se já faço palavras cruzadas, preciso de mais alguma coisa?
As palavras cruzadas são um bom hábito, mas a saúde do cérebro depende de muitas coisas. Juntar movimento, convívio, cuidado com a audição e a visão e controlo da tensão arterial é o que a Comissão Lancet recomenda e pode fazer mais diferença do que uma atividade isolada.
Precisa de ajuda?
Não tem de fazer este caminho sem apoio. Se quiser conversar sobre a sua memória ou a de um familiar, posso ajudar: em Paredes, ao domicílio no Tâmega e Vale do Sousa, ou online.
Fontes
- Lampit, Hallock e Valenzuela (2014): treino cognitivo em pessoas mais velhas saudáveis, PLoS Medicine
- Gates et al. (2020): treino cognitivo computorizado em pessoas mais velhas saudáveis, revisão Cochrane
- Rebok et al. (2014): estudo ACTIVE, efeitos a 10 anos
- Simons et al. (2016): o que diz a evidência sobre os jogos de treino cerebral (resumo)
- Livingston et al. (2024): Comissão Lancet sobre prevenção da demência
- Organização Mundial da Saúde (2019): Risk reduction of cognitive decline and dementia
Revisto em outubro de 2026.
